sábado, 18 de setembro de 2010

Recordando Dante Milano

Foi o “amigo escritor” quem falou sobre Dante Milano. Talvez eu tivesse uns 12 anos. A maioria dos nomes pronunciados pelo “amigo escritor” eram imediatamente “resgatados” das conversas e logo estavam nas minhas mãos: Jorge Luís Borges, Franz Kafka, Raduan Nassar, James Joyce, Leon Tolstoi, Sousândrade, Luigi Pirandello, mas, Dante Milano ficou pelo caminho, ao ponto de lhe atribuir uma biografia imaginária, confusa,  talvez um amalgama das outras vidas que já li.  Para mim, trava-se do pseudônimo de um poeta nascido no século XIX, maldito, execrado, mas que, como todos os gênios, morreu na obscuridade.
Hoje, no centro da cidade, a procura de Reinaldo Arenas e Elias Canetti, meus tristes exilados, encontrei Dante Milano:
Dante ao meio
Nada de maldito nem execrado. Dante Milano, identidade civil do poeta, nasceu no Rio de Janeiro, final do século XIX, em 1899, e morreu em 1991, em Petrópolis. Era recluso. Não vivia, como disse João Cabral, de fazer vida literária, vivia em poesia. Lançou o primeiro livro em 1948, contra a sua vontade, foi pego de surpresa por um amigo que lhe levou os originais.  E, apesar de sua autosaboagem, o livro ganhou o Prêmio Filipe de Oliveira, algo correspondente ao atual Prêmio Jabuti. Foram feitas algumas reedições em 1958, pela Agir; 1971 pela Sabiá e em 1979  o Núcleo Editorial da UERJ com a Civilização Brasileira editaram toda a sua obra (guardada), poemas inéditos, a prosa dispersa em jornais e parte das traduções. Porém foi escritor de apenas um livro.
Apesar de ser contemporâneo do  Modernismo, o poeta já  estava pronto, não se rendendo à efervescência  da Semana de Arte Moderna. Dante Milano tem formação clássica, buscando inspiração  em Horácio, Virgílio e Dante de quem traduziu três cantos do Inferno. O discurso milaniano cultiva a poética do "pensamento emocionado" dos poetas metafísicos ingleses do séc. XIX e se firma sobre o tripé da morte, do amor e do sonho. 
Agora, preparo-me para leitura da poesia de Dante Milano, sem pressa,  até que a "terra, com suas garras, nos rasgue a máscara".
C.


Referência:
MILANO, Dante. Obra Reunida. Sérgio Mtargão (org). Ivan Junqueira (apresentação e bibliografia). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras.

Um comentário:

Aldir Brasil disse...

carmelia
dante milano
O amor de agora é o mesmo amor de outrora


O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

ps: " O mUndo aliciante" , areinas !!!!!
beijos